8.2.11

A PORTA - iniciando 2011!!!!

A Cia. Troada retoma suas atividades e se prepara para a primeira apresentação do ano no SESC São José dos Campos, dia 17 de fevereiro, quinta-feira, 21h.

Encerramos 2010 após a temporada no Centro Cultural São Paulo e recebemos, carinhosamente, alguns comentários belíssimos. O retorno de pessoas que assistem o espetáculo com sugestões, críticas ou puras impressões, é muito rico para a Cia. Troada!

Compartilhamos abaixo algumas impressões sobre A PORTA. E aguardamos outras!
Feliz 2011 a todos!!!

Forte abraço,
Cia. Troada.
Estou nervoso. Amanhã tenho uma prova teórica do processo seletivo do doutorado em cênicas. Eu deveria ir para a cama. Eu deveria descansar para ter uma boa noite de sono. Talvez eu tenha medo dos sonos intranqüilos se não escrever o que está na minha cabeça. Fui ao CCSP no domingo ver sozinho o espetáculo "A Porta". Quando digo que fui ver sozinho me refiro à ausência de acompanhantes. Afinal, a casa estava cheia com uma platéia atenta aos maravilhosos desempenhos dos atores da Cia. Troada. Como posso dormir hoje sem escrever sobre as máscaras da Elisa, a luz do Du, a direção do Vina e a voz do Ravel? Não quero esquecer. Não quero deixar passar. Todos estes amigos são muito queridos, artistas talentosos, pessoas que admiro e respeito por suas escolhas. Talvez a minha maior emoção tenha sido provocada pela lembrança do curso de máscara que fizemos há mais ou menos dez anos. Era uma turma especial, reunida para aprender com Tiche e Ésio no Barracão Teatro, em Barão Geraldo. Me lembrei também de ver o ator Vina e a atriz Elisa com suas meias máscaras expressivas em uma praça neste mesmo Barão. Me lembrei de tudo isto ali na platéia durante o espetáculo, imaginando o que passaram estes artistas até aquele novo momento que eu testemunhava. Mas posso estar enganado porque toda memória carrega sua confabulação. Esta "memória confabulatória" me foi apresentada em uma conferência de James Fentress no SESC Vila Mariana em 2006. O que pode ser também uma lembrança inventada pela minha memória. Não que eu não tivesse inventado memórias pessoais e coletivas anteriormente (quem não inventou?), mas acreditar nestas memórias como verdadeiras seria algo muito arriscado. A memória ativa e criativa é um desafio ao nosso entendimento do passado e isto se reflete no nosso presente. Se olhada como uma dramaturgia biográfica ela se torna um poderoso instrumento para a construção de uma personagem, de suas falas, seus figurinos e, até mesmo, de seu final "feliz". Eu acreditei no teatro do ator tomado pelo personagem perdido pelas ruas de São Paulo, e acho que o melhor é sempre duvidar do que pensamos ser real. Acho que foi o Quintana quem disse algo como a mentira ser uma verdade que se esqueceu de acontecer. Mas e a verdade? E o real? O que são exatamente? Eu não tenho certeza, mesmo porque, esta frase que penso ser do poeta pode ter sido apenas algo que me foi dito e esquecido e lembrado e esquecido e.......inventado. Um lembrança do que está por vir, ou do que desejei estar.

Paulo Renato Minati Panzeri
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 Quase uma semana, depois que eu assisti ao espetáculo da Troada. Ainda me tocam as imagens. 

Sou um leitor assíduo do Sr. Kafka. Comecei com "A Metamorfose", numa edição em papel jornal que a Revista Caras lançou. Além do famoso texto, havia uma série de contos curtos. Dali em diante, tive que ler tudo o que o homem escreveu.

Tenho sido forçadamente criterioso com os espetáculos que assisto, apesar dos vários amigos incluídos na ficha técnica. Estamos com dois filhos pequenos, que precisam ser despachados para a casa dos avós, em Osasco, a cada vez que resolvemos fazer um programa conjugal. Esse movimento me enche de preguiça várias vezes.

Encontrei a Elisa no dia da inscrição para o Mestrado na ECA e ela me falou do espetáculo. Me deu um cartão da peça e eu me confundi mil vezes, provavelmente irritando-a, achando que se tratava de teatro de bonecos, ou de um infantil. Eu não estava prestando muita atenção, porque o pequeno acorda a cada duas ou três horas na madrugada e eu não consigo repor isso durante o dia. Além disso, tinha que voltar logo para casa, para fazer o almoço.

Comecei a ver links no Facebook com os clipes da peça e resolvi assistir a um deles por curiosidade. "Número Trinta". Genial! Tinha o senso de humor que eu identifico em Kafka. Tinha a dureza, a angústia, as regras estúpidas e rígidas. A rebelião frustrada contra isso… Chamei a Clau, com o cartão na mão, e mostrei o vídeo a ela. Disse: "Clau, vamos ver isso? É do Vinão e da Elisa… Achei muito louco. Lembra o Fezão, que namorava a Laís na época do Frio? Ele fez a dramaturgia."

Desde ali eu me senti o número trinta e um.

Eu sou o trinta e um e na fila estão os outros sete bilhões, sempre com alguém na sua frente e depois de você. Sempre lidando com uma realidade tão absurda, que o sonhar parece mais real e a única saída viável. Insones. Estamos todos insones.

O sonho manipulado, desejando coisas que outros desejam que desejemos. Caralho!

Visualmente impecável. Lindo. A máscara traz o caráter do personagem de saída, logrando o mesmo efeito de uma caricatura, ou de uma história em quadrinhos. A expressão estática do protagonista, sempre surpreso. A dupla de entregadores de documento. A secretária. A simplicidade da solução cenográfica, com elementos perfeitamente amarrados.

Particularmente genial é a associação entre a bolinada no seio da secretária e a cena de sexo, seguida da sedução e dos toques de campainha da cena "Número Trinta". A campainha e o seio da secretária… A sedução e a entrega adiada comparadas à burocracia e aos pequenos poderes. Sexo e morte.

A precisão do elenco me impressionou logo na primeira cena. A partitura perfeita. Isso me lembrava do Belloni e do seu "Frio 36 e Meio", a coisa mais ducaralho que eu já fiz nessa vida. Me lembrava daquela loucura toda, de fazer a coisa exatamente no tempo da música. Me lembrava da sensação.

Eu tinha o tempo todo a maravilhosa sensação de estar sendo iludido. Via o truque e não sabia como o mágico estava fazendo aquilo. O ator se deitava acompanhado na cama e quando a luz voltava, ele estava sozinho de novo. Isso me colocava em estado de sonhar permanente. Tudo seria possível a partir daí.

A luz do Edu era genial. Simples e maravilhosa. Aquele efeito da cadeira de rodas na frente dos set-lights era um desbunde! Ali tínhamos o trem, sem mais nada. As entradas da mulher de chapéu…

Porra, Vinão!
Porra, Elisa!
Porra, Troada! Que espetáculo lindo vocês estão fazendo, hein?
Djair Guilherme
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“Há um prazer secreto na loucura que só os loucos conhecem.”
John Dryden

Para Vinicius,
Acho que o tempo do ser humano não é, e nunca vai ser esse tempo que nós mesmos nos impomos. Não dá pra acompanhar, é um tempo artificial. Mas, vez em quando, podemos parar, não o parar no sentido do sem movimento, pelo contrário, o parar no sentido de dar fluidez ao pensamento, este viajando a uma velocidade quase da luz e ao mesmo tempo flutuando pacientemente.
Esta noite, diante de tal  “representação” de uma pessoa através de muitas, ou das várias facetas de uma mesma, pude parar. Estava apreensiva, tentando absorver cada palavra sem som que estava por vir.
Uma obra de arte não é como um fenômeno que pode ser explicado pela física. Não se pode predizer os resultados, tão pouco alterá-los de antemão aumentando ou diminuindo esta ou outra variável. Primeiro por sua própria natureza de ser única, e, segundo, pela irradiação que ela pode causar em cada espectador, que por sua vez, também é único.
Tudo isso só pra dizer que pude mergulhar um pouco, se é que é possível, na escuridão de um “imaginador”.
Lá tinha de tudo um muito. Sob a sensação envolvente e um tanto quanto tenebrosa de sua loucura, havia uma sutileza de impressões, de sentimentos vívidos, talvez por terem estes sido estes realmente vividos. E mesmo que imaginados, ainda assim eram reais.
Tenho a impressão que vi um pouquinho de você em cada gesto.  Sua ironia, o seu humor, as vezes sarcástico,mas engraçado, mesmo que não me fazendo rir. Senti uma angústia enorme, dancei com a vida e com a morte. Por alguns instantes parei, me transportei e com certeza não voltei a mesma.
Sair da sua zona de conforto faz bem, expande seu campo de visão. Faz você ver e rever o significado de cada sentimento que te compõe. Não importa se foi sonho, pesadelo, pensamento, ou uma “simples” apresentação. Foi um espetáculo!
Adriana Lima.

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